quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Cadernos Negros, volume 38: Contos afro-brasileiros/ Org. Esmeralda Ribeiro, Márcio Barbosa. "A PROMESSA" de Elaine Marcelina, pag. 89



A PROMESSA

Ela engravidou aos dezessete anos de idade. Por conta disso foi posta na rua por seu pai. Gerou sua primeira cria embaixo das marquises na zona oeste do Rio de Janeiro. Deu à luz a uma menina, e nem assim seu pai cedeu. Nos primeiros dias dessa criança, sendo criada embaixo das marquises, sem higiene nem cuidados, seu umbigo melou.
Sua irmã mais velha implora ao pai para recebê-la de volta em casa. E ele aparentemente cedeu Disse: “manda essa dona vir pra casa”, e ela vai toda contente, agradece à irmã e ao pai... mas neste ínterim de euforia, ele diz “você pode ficar, mais está vindo uma dona aí pra pegar essa criança”.
Ela deu meia volta, e fugiu com sua menina nos braços, chorando sem saber o que fazer.Pegou o trem e foi procurar uma casa de “família” para trabalhar.Mas uma casa que aceitasse sua filha junto, e foi quando encontrou Dona Catarina.
Ela a aceitou e foi ajudar a cuidar da menina... Levaram ao médico, e é aí que ela chega ao hospital com a filha nos braços, e o médico diz: “temos muito pouco a fazer”.
Então ela fez uma promessa a São Sebastião, que se sua filha sobrevivesse a levaria aos pés do santo, todos os anos, só com o short vermelho, uma fita vermelha, sem camiseta e a vela na mão. Sua filha sobreviveu. Ela pagou a promessa. Durante sete anos levou a menina aos pés do santo, e como se não bastasse seguir a procissão, tinha ainda que beijar a fita todos os anos. E foi assim que essa mãe preta embalou sua dor e sobreviveu com sua cria na casa de outra família.
É assim que muitas de nós sobrevivemos até os dias atuais. Vencendo as barreiras, as dores, engolindo as lágrimas, fazendo promessas e, cumprindo-as, seguimos adiante.
Hoje, quando ela passa pela marquise com a filha, já adulta, passa um filme dos tempos em que ali era a sua casa, o local onde gerou sua menina, a primeira. Corre no canto dos olhos uma lágrima, a filha seca e diz: “mãe, já passou”. Ela sorri, olha para filha e diz: “o tempo passou, minha pequena Flor de Ébano, mas as marcas, essas ficaram na lembrança. Sempre que eu passar por aqui vou lembrar”.
E assim as duas seguiram, deixando para trás a marquise que um dia fora seu lar. E ela diz agora para a filha: se seu avô fosse vivo, ele iria se orgulhar de nós tenho certeza. Ele fez aquilo de me deixar na rua, porque eu era muito nova. Naquele tempo tudo era muito rígido na moral das famílias.
“Flor de Ébano, quero que você seja muito feliz. Eu lhe conto essas coisas para que você saiba da sua história, não para fazer você sofrer.”
Mãe, eu amo a senhora, e eu nem lembro essa época. Eu era somente um bebê, e graças à senhora estou aqui, forte, para ouvir essa história e seguir em frente. Todo mundo tem histórias, mãe, umas tristes, outras alegres, mas todos temos histórias.”
E do fim da rua podem avistar mãe filha, seguindo abraçadas, carregadas de suas histórias, alimentadas por sua fé e indo, rumo a um novo caminho, mas ali unidas, tal qual no período da marquise, quando o calor de uma servia para aquecer a outra. Sendo que agora a mãe é acalentada pela Flor de Ébano. Outrora era a mãe quem a acalentava. Essas duas mulheres terão até a eternidade para se unirem, seus laços nasceram embaixo da marquise, mas hoje a marquise é coisa do passado, e o amor de mãe e filha é o que as une nesta vida.

Elaine Marcelina




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