sexta-feira, 31 de março de 2017

Tia Sueli, superando as duas Rodas


Tia Sueli, superando as duas rodas

Na semana passada fui visitar minha tia e madrinha, ela se chama Sueli, bom a tia Sueli foi atropelada a cerca de um mês e operou o tornozelo, quando cheguei lá ela estava almoçando sentada na cadeira de rodas, aí conversamos, rimos, pois ela é muito forte e quando acabou de comer, me pediu “me ajuda aqui”, quando fui para trás da cadeira ela disse “não só me segura, que eu mesma empurro a cadeira, assim o fiz, vocês não vão acreditar, ela se apoiou em mim e pulando em um pé só, porque o outro está com gesso, ela veio empurrando a cadeira. Em minha opinião merecia este texto e muito mais. E assim ela fez durante o dia que passei lá, ora ia empurrando as rodas da cadeira com a mão, sentada e ora ela ia pulando num pé só e levando a cadeira até onde desejava, no fim da tarde resolvi ir embora e ela me disse “eu te levo até a esquina”, a essa altura eu já não me espantava com mais nada, então disse, vamos! Minha tia Sueli me acompanhou até a esquina na cadeira de rodas, que superação não reclamou de nada. A cadeira é um incomodo, mas ela tirou de letra aquelas duas rodas, não foi sucumbida por elas, ela cozinha, vai da casa até a esquina, as vezes com ajuda de algum vizinho até atravessa a rua. Meus caros em momento nenhum ela simulou um discurso derrotista, só está passando o que tem que passar e andando como pode, seja sobre duas rodas ou sobre um pé só empurrando as duas rodas. Vamos pegar esse exemplo e suplantar nossas “duas rodas”, que viram de diversas formas e quando chegarem não poderemos titubear. Tia Sueli, parabéns por sua força, sei que em alguns momentos, por exemplo o banho, a família tem se revezado para lhe ajudar, mas de toda a forma a força é sua de ter passado pela mesa de cirurgia, agora pela cadeira e assim está vivendo a vida mesmo que a trancos e barrancos. Seja feliz e vitoriosa sempre!
Elaine Marcelina


Mãe Regina Bangbosé: Uma história do sagrado


Mãe Regina Bangbosé: Uma história do sagrado

Elaine Cristina Marcelina Gomes

INTRODUÇÃO

              Este trabalho tem por objetivo narrar à história de vida de Regina Topazio de Souza, uma mulher negra que nasceu em Salvador no ano de 1914, sendo filha de Damásia Topazio Sowzer e Felisberto Américo Sowzer (Benzinho Bangbosé), neta de Maria Julia Martins de Andrade e Eduardo Américo de Souza, e bisneta do Rodolfo Martins de Andrade ( Babalaô Bangbosé Obitikó), por ser Regina filha de africano, herdou sua cultura religiosa, o culto as religiões de Matriz Africana, neste caso o Candomblé. Regina foi iniciada no candomblé aos seis anos de idade e a partir daí levou esta missão até os seus 95 anos de idade, quando faleceu aos vinte e cinco dias do ano de 2009, deixando para sua família um legado, dar continuidade ao culto que ela aprendeu com o pai e os avós, repassou a seus familiares carnais e de santo.
          Descrever a história de vida de Regina Topazio de Souza, ou Mãe Regina de Iemanjá (Mãe Regina de Bamboxê), como era conhecida, é contar um pouco das histórias destas negras valentes, guerreiras e ousadas que fazem parte da construção deste país e a vida dela vai além, quando além de uma vida marcada por lutas, perseverança e discriminação, é também uma vida marcada pela dedicação, amor e sabedoria no culto aos orixás, e ainda com a missão não só de cultuar como também de transmiti-la da forma com que fez durante toda sua vida.
       Regina Topazio de Souza era professora, casada, mãe de três filhos, ficou viúva cedo e após a morte de sua mãe, vem para o Rio de Janeiro no ano de 1957, quando abre sua casa de santo no bairro de Cavalcante e depois migra para Santa Cruz da Serra, em Caxias, e lá construiu sua roça de santo junto com seus filhos de santo.
       Acredito que primeira pessoa da família Bamboxê que chega ao Brasil é o Babalaô Bamboxê Obitikó, trazido por Marcelina da Silva, que era ex-escrava de Ya Nassô, uma das mulheres que estavam a frente do primeiro grande Candomblé da Bahia, a Casa Branca do Engenho Velho, como Ya Nassô morreu na África, Marcelina da Silva volta ao Brasil alforriada e com a missão de dar continuidade a Casa Branca do Engenho Velho com as irmãs de Ya Nassô. A partir deste momento Marcelina da Silva acaba por trazer algumas figuras que no futuro irão contribuir com ela na continuidade desta casa de santo, e este é o caso do Babalaô Bamboxê Obitikó, que chega ao Brasil, no ano de 1840, pois de 1831  a 1835 existe uma lei na Bahia proibindo a entrada de escravos libertos, por conta das revoltas, então ele aguarda este período para pode entrar no Brasil. Bamboxê Obitikó se torna escravo no Brasil e vai ser batizado como Rodolfo Martins de Andrade e depois que compra sua alforria ele passa a ser um homem muito importante, pois ele tem o saber religioso, e com isso ele irá inserir no Candomblé o Sistema Bamboxê, um sistema próprio desta família no ato de jogar búzios. Bamboxê Obitiko (Rodolfo Martins de Andrade), irá começar a levar seus filhos a África para passear e há um período em que leva sua filha Maria Julia e lá ela da a luz ao menino Felisberto Américo Sowzer, este vem ao Brasil a primeira vez com nove anos de idade e fica assim viajando muito, depois ele se casa com Damásia Topazio, e desta união nascem quatro filhos (Irenea Topazio Sowzer, Regina Topazio Sowzer, Crispim Topazio Sowzer e Taurino Eduardo Topazio Sowzer, sendo Regina o objeto deste trabalho. Desta forma acredito na contribuição da família Bamboxê para a cultura brasileira, em especial para a história de todos nós brasileiros. A Yalorixá Regina de Bamboxê ao longo de sua vida será a mulher que levará o nome desta família a diante, assim como a cultura de seus antepassados africanos e conduz com maestria, podendo ser chamada não só por mim, mas por todos que a conheceram de matriarca da família Bamboxê e no Rio de Janeiro recebeu prêmio em 2003, por ser uma das Yalorixás mais antigas e respeitadas do estado naquela época. É a história desta mulher negra que tenho o prazer e orgulho de dividir com vocês e tomo a liberdade de abaixo mostrar uma das frases dela e como sua história tem me contagiado e me trouxe até este desafio:

“EU SOU UM, QUE DOIS NÃO GANHA”
                                Mãe Regina de Bamboxê

Há muito penso e reflito sobre esta frase, dita por uma grande mulher que é meu objeto de pesquisa, em minha dissertação de Mestrado, Dona Regina ou Mãe Regina de Iemanjá. Hoje encontrei duas pessoas de meu passado, que tivemos nossas rusgas e nos cumprimentamos, quando me perguntaram “e os projetos?”, respondi, lanço outro livro este ano, e me perguntaram “o da tese?”, eu disse, também, mas falava de outro o “Emoções reveladas” e nisso veio o meu ônibus. Dei-me conta da minha fortaleza e lembrei, mas uma vez desta frase e desta grande mulher, que durmo e acordo pensando nela, em sua vida e como posso expor sua fortaleza, muito disso através dos depoimentos dos filhos de santo dela, pois não à conheci em vida, mas de tudo que me foi dito, trago aqui dois ditados dela, nos quais sempre recorro e acho de muito grandeza e muitos significados: “Na prevenção ninguém me ganha” e “Eu sou um, que dois não ganha”. Com toda certeza ela foi mais que isso, uma mulher negra, viúva, que chega ao Rio de Janeiro em 1957, deixando três filhos na Bahia, vem morar numa casa alugada, em Cavalcante, onde também cultuava a religião dos orixás, o Candomblé, depois de alguns anos migra pra Santa Cruz da Serra e constrói uma grande casa de santo, o Axé Ilê Yamim, local onde hoje fui iniciada no candomblé, por sua neta, a minha Ya Lina de Oxumarê. Neste último ano e principalmente nos últimos dias a vida e obra de Dona Regina Topazio de Souza, não sai de meu pensamento, escritas e tudo o mais. Outro dia eu tentei pegar um ônibus, estava com minhas contas, pois estou cumprindo o resguardo de minha obrigação iniciática, bom o motorista não abriu a porta pra mim, me sinalizando que o ponto era mais a frente, isso mesmo ele estando parado, por conta do trânsito engarrafado e muito chateada fui andando, cerca de uns dez minutos e cheguei ao ponto, fiz o sinal, ele abriu a porta e sorriu de canto, como um deboche, eu firmei o olhar pra ele, entrei no ônibus e nada disse, mas pensei nesta frase “como dizia Dona Regina, eu sou um que dois não ganha”. E tudo por causa das minhas contas, mas isso só me fortaleceu, imaginem o que Mãe Regina não passou e tantas outras mulheres negras do candomblé ou não, por volta de 1960? Estamos em 2012, e ainda existe preconceito, mas vamos vencer, temos que vencer, porque ela venceu, pois faleceu em 2009 com mais de 90 anos e deixou um legado. Sei que hoje, a senhora é um ancestral, e onde esta de alguma forma permitiu que humildemente eu escrevesse parte de sua história, estou tentando catalogar sua história de vida, que se mistura com a história do Brasil, de salvador, do Rio de Janeiro e ainda com a de seus antepassados africanos. A minha forma de reconhecimento e gratidão é poder escrever as melhores linhas de minha vida, neste trabalho.

 Pesquisar e catalogar a história de mulheres negras anônimas é de fato trazer a tona a nossa verdadeira história, trazer à tona as mães pretas que amamentaram o colonizador, as mãos pretas que acalentaram e alimentaram nossos algozes, os pés pretos que andaram para abrir caminho para eles, o corpo de nossas mulheres negras que foram usado para satisfazer seus desejos e suas crueldades, e hoje usufruem de tanto da cultura deste povo negro que veio de África traficado e roubado numa das piores coisas que podem tirar de um ser humano, que é sua língua, sua cultura, sua história, sua fé e em dado momento tentaram tirar até a alma, mas contradizendo a tudo isso nossos antepassados resistiram bravamente, morreram em nome de um sonho de liberdade e hoje o que podemos fazer é eternizar todas essas mulheres negras fruto desta crueldade, mas que estão aí construindo, ou melhor, reconstruindo esta nação chamada Brasil e com o dever de mudar as mentalidades.

DESENVOLVIMENTO DO TEMA

Aos sete dias do mês de setembro de mil novecentos e quatorze, nasce Regina Topazio de Souza, filha de Felisberto Américo de Souza e Damazia Topazio de Souza, em Salvador, Bahia, na Rua Luiz Anselmo, nº 72. Regina será iniciada no Candomblé por Mãe Judite, filha de santo de seu pai aos seis anos de idade, sendo filha da Yaba Iemanjá. Regina Topazio de Souza cresceu na Bahia com seus pais e irmãos, sendo eles Irenea Sowzer, Crispim Sowzer, Taurino Sowzer e irmãos por parte de pai, Mãe Caetana e Mãe Tertuliana. Todos cresceram sob os ensinamentos do africano Felisberto Sowzer, também conhecido por Benzinho Bangbosé. Enquanto criança cresceu sendo ensinada a cultura de seu pai, a religião de matriz africana, que no Brasil terá o nome de Candomblé, mas entretanto ao longo de sua história de vida vamos perceber que também tinha sua fé católica herdada pela mãe, onde eu tive a oportunidade de ver um caderno de orações que recebeu de sua mãe e guardou, onde consta além de algumas orações católicas como também a trezena de Santo Antônio. Esta família cresceu na Rua Luiz Anselmo, no Matatu, Salvador, onde ainda hoje vive lá sua irmã Irenea Sowzer, e no fundo desta casa tem uma casa de santo que foi feita por sua avó materna, a Dona Maria Julia, filha do babalaô Bangbose Obitikó e mãe de Felisberto Américo Sowzer, pai de Regina Topazio Sowzer. Acredito ser importante falar da árvore genealógica de Regina Topazio, por conhecer sua história e perceber o quão importante estes personagens são de suma importância para a construção deste país, e carregam consigo parte de todos nós no momento em que além de trazer a cultura africana, mesmo depois do período de escravidão e de toda tentativa de alijamento dessas pessoas, encontrar ainda hoje uma mulher que viveu sob esses ensinamentos e foi além, soube cultua-los, transmiti-los em segredo, claro e só após sua morte no ano de 2009, com o apoio de sua neta carnal a Yalorixá Lina de Oxumarê consegui ter acesso ao material rico que compõe a vida desta matriarca e que cada vez que mexo e remexo esta história me emociono, porque veremos ao longo o quanto esta mulher foi forte, corajosa, ousada, sabia, todos os atributos de uma sacerdotisa. Bom, antes de Regina decidir pelo sacerdócio, ela foi professora em Salvador, tinha uma espécie de escolinha em casa, obteve muitos alunos, até hoje existem cartas de seus alunos para ela que estão guardadas com sua neta. Ela teve uma grande paixão por Vicente Fabriciano Pereira e se casou com ele, desta união nasceram Maria Helena Souza Pereira, Waldir Souza Pereira e Waltercio Souza Pereira, viveram pouco este amor, pois Regina ficou viúva cedo e após esse fato passou a se dedicar mais aos afazeres religiosos, foi quando após a morte de sua mãe ela inicia sua primeira filha de santo, em Salvador, no ano de 1956 e no ano seguinte por motivos que não me foi revelado ela vem ao Rio de Janeiro, a principio a passeio, e segundo relatos começam a lhe solicitar obrigações, ela por carta troca informações com sua irmã Irenea, sobre tais obrigações e vai ficando, ficando. Acaba por chegar o momento em que Regina decide ficar no Rio de Janeiro, onde aluga uma casa no bairro de Cavalcante e lá abre sua casa de santo o Axé Ilê Yamim, sendo que este período em que ela chega ao Rio de Janeiro, não só a Cidade, mas o País vive já o processo de um dos períodos mais nebulosos de nossa História, que é o Golpe Militar, desta forma iremos perceber que força tinha esta mulher negra, que vem de Salvador, no início deixou seus filhos na Bahia e passa a se corresponder por carta com eles e com sua irmã, vende sua parte da casa e tenta comprar a casa onde morava de aluguel, mas por motivos que hoje ao analisar a documentação acredito ser pelo processo de não ter casas de santo no Centro da Cidade ou em bairros próximos ao Centro, assim como, Cavalcante, que vinha a ser o subúrbio do Rio. Quando realizava o culto aos orixás era necessário pedir autorização na Delegacia e pasmem, era na Delegacia de entorpecentes, quando vejo estes documentos, fico a pensar, quanta discriminação e ao mesmo tempo quanta força, uma mulher negra e viúva, peitar tudo isso e ir lá na Delegacia toda vez que iria realizar o Candomblé, em uma das autorizações da Delegacia, vem escrito que autoriza a Senhora Regina realizar o Culto ao orixás desde que não utilize tambor, e lá vinha também o horário que deveria ser cumprido, percebam aí tamanha hipocrisia, maldade e tudo o mais que não cabe aqui, porque se todo nós sabemos que tanto o atabaque quanto o tambor é o que chama o orixá, é o instrumento utilizado para o toque do candomblé, e foi assim que ela ficou ali por anos e ainda tentou comprar a casa, e não tendo êxito acabou tendo que ir para Santa Cruz da Serra, Caxias, migrou para a baixada fluminense, assim como, ocorreu com muitas casas de santo, processo este que já vinha acontecendo desde a reforma Pereira Passos, de retirar as casas de santo do Centro da Cidade, acredito  na tentativa de esconder nossas origens, origens essa que são discriminadas até os dias atuais, remontando a trajetória da Yalorixá Regina de Bangbose, temos um misto de situações, temos a mulher que recebe a herança africana de seu pai diretamente, temos aí a mulher negra lutando para criar seus filhos depois da morte do marido, temos aí a mulher que migra para outra Cidade na tentativa de vencer e depois buscar seus filhos, e assim ela o fez, temos aí uma mulher negra que mesmo debaixo de toda opressão e discriminação não fugiu a sua missão, a de mãe e não só mãe dos seus, mas mãe de muitos, aqueles filhos da alma, do espirito, ou melhor, filhos do axé, filhos de santo, estes a quem ela deixou seu legado, estes que contribuíram de forma ímpar para que hoje possamos conhecer melhor a vida e obra desta mulher negra que tanto me orgulho de com muita humildade divulgar. 
            No momento em que Regina Topazio decide ficar no Rio de Janeiro, passou a se comunicar com seus parentes através de cartas. Recebia cartas da irmã Irenea, de seus filhos, algumas anônimas, porém durante muito tempo essa foi a única forma de contato com os seus. Nas cartas, tratavam de tudo, desde coisas da família até fatos ligados ao culto do Candomblé. Nestas cartas, são demonstrados os laços mantidos por essa família. Nas cartas pode-se perceber o quanto a Yalorixá Regina é ligada à família, e como cada minúcia que ocorre é repassado a ela detalhadamente. Seguir o sacerdócio e manter os laços com a família consanguínea quiçá tenha sido mais uma das fortalezas desta mulher. Além de professora, Regina foi também doméstica. Como Regina Topazio de Souza era uma mulher de pouco falar, não foi possível encontrar muita coisa sobre seu casamento, e depois de viúva, ela não se relacionou com mais ninguém, viveu somente para a família e para os orixás. 
Como falei acima o inicio de seu sacerdócio se deu no ano de 1956. O primeiro barco da Yalorixá Regina de Iemanjá foi feito na casa de Persevalina Alves de Lima, situada na Estrada Velha do Aeroporto, trecho conhecido por cascalheira, que mais tarde recebeu o nome de bairro de São Cristóvão. O barco tinha duas yaôs, sendo a dofona , Maria das Graças Lima Guimarães, de Omolu, e a dofonitinha , Persevalina Alves de Lima, de Oxum. Regina Topazio de Souza, descendente da família Bangbosé, em 1957, aos 43 anos de idade transferiu-se para o Rio de Janeiro, onde fundou o Axé Ilê Yamim. Segundo relatos, começou a ser solicitada para jogar búzios, ofício que aprendeu com seu pai. A partir destes jogos, ela vai fazendo obrigações e abre sua casa de santo em  Cavalcante, Centro do Rio de Janeiro: o Axé Ilê Yamim.
              No Rio de Janeiro, em um período conhecido por todos como “anos de chumbo” – período da Ditadura Militar no Brasil, quando muitas pessoas fugiram do país, foram exiladas, outras mortas, outras torturadas – a Yalorixá Regina de Iemanjá professava o Candomblé. Diante de tal cenário, todas as casas de santo migraram para o interior e com o terreiro de Candomblé da Yalorixá Regina de Iemanjá acontece o mesmo. Ela migra inicialmente para Furnas, em Caxias, e depois fixa o terreiro definitivamente em Parque Eldorado –  Santa Cruz da Serra, em Caxias.
Regina Topazio de Souza tinha sua fé católica. Era devota de Santo Antônio, e quando começava o mês de maio, ela entrava em oração até o dia do santo, em 13 de junho, fazendo a trezena de Santo Antônio que, infere-se, herdou de sua mãe Damásia Topazio de Souza, pois o caderno de oração pertencia a ela. A conclusão a que chegamos diante da fé católica da Yalorixá Regina de Iemanjá se dá pela forma como o catolicismo foi imposto no Brasil. No Brasil o catolicismo promoveu uma paz social, justificando assim a escravidão, e sendo assim todo o povo brasileiro foi obrigado a professar a fé Católica, o que penetrou no de forma inconsciente no brasileiros, o que não nos causa estranheza ver uma Mãe de santo de declarar Católica, como muitas outras o fizeram, mas chamo para a reflexão a questão de que foi tirado de todo africano que aqui chegava, seu nome, sua cultura, sua religião, na tentativa de dizer que os africanos não tinham cultura, e desta forma ocorreu durante a escravidão, porém acredito que o colonizador não contava com esta inteligência, com essa sagacidade que os negros africanos tinham, de obedece-los, mas sem esquecer e deixar de cultuar, sua fé, sua língua, sua cultura, seus orixás, tanto foi assim, que hoje nos temos em cada região do país a peculiaridade vinda de cada região de procedência daquele escravo vindo da África e desembocado em tal porto, vamos perceber também nas nomenclaturas das religiões vindas da África, que em dado momento irão se chamar, ou serem intituladas de “Religiões negras”, colocando assim toda e qualquer manifestavam advinda de um negro africano, depois irá se chamar Calundu no séc.18 e no final deste na Bahia passa a ser chamada de Candomblé, no Recife de Xango, no Rio de Janeiro de Macumba, em Minas de Tambor de Mina, bom não irei aqui tecer sobre esta evolução, porém acho importante sinalizar, por ser nossa história, o que vamos encontrar em cada região do país tem a ver com o tráfico de escravos, de onde se originava este escravo, de que região da África ele esta vindo e desta forma foi acontecendo o que chamamos de aculturação o entrelaçar das culturas.
A Yalorixá Regina de Iemanjá, além do culto aos orixás, cultuava um caboclo, o caboclo Urubatan, que em uma de suas cantigas dizia que demorou 40 anos para chegar, pois ele chega a partir do momento em que abre sua casa de santo em Cavalcante. Segundo depoimentos, receber o caboclo não tinha qualquer ligação com um dos cultos oriundos das religiões negras no Brasil, como a Umbanda, e sim com a relação de se estar no Brasil e com a herança aqui deixada pelos indígenas. Segundo relatos, a festa do Caboclo era muito comemorada tanto pelo próprio caboclo como pelos outros, pois, como sustenta a tradição oral, ele levou 40 anos para chegar. Sua festa às vezes durava uns dois dias; ele chegava, dançava, comia e bebia. Todo esse rito se iniciou no Rio de Janeiro. A casa do caboclo é a única coisa que me foi mostrada no Terreiro, pois os quartos de santo não podem ser abertos, tem que se manter o segredo da religião. Acho interessante descrever a casa do caboclo, assim como os signos identitários que a compõe, o interior da casa do caboclo Urubatan tem imagens de caboclo, comidas, bebidas, frutas e flores. Fiz a comparação da casa do caboclo com uma foto antiga, e para mim em nada mudou, visto que foi sendo mantida da forma com que a Yalorixá Regina a construíra e conduzira. Já a parte externa da casa do caboclo é feita de palha, o chão é de terra, há plantas em sua volta. Todos quando chegam à casa de santo vão em todos os quartos de santo e depois até a casa do caboclo e fazem uma saudação a ele.            O culto ao Caboclo Urubatan foi uma das coisas que a Yalorixá Regina fez seguindo ordens do próprio caboclo, como sustenta a tradição oral, e desde que chegou ao Rio de Janeiro, e decidiu cuidar do caboclo, foi possível ver a festa dele durante todos aqueles anos, missão que ela levou até o fim. 
Eu pude analisar umas fotos da Yalorixá Regina dançando em roda de candomblé no Axé Ilê Yamim e à sua volta os seus filhos de santo e os visitantes, todos saudando a sacerdotisa. Mãe Regina de Bamboxê ou Mãe Regina de Iemanjá, como gostava de ser chamada, pois Bamboxê era, para ela, “o mais velho”. Levava o culto aos orixás com muita seriedade, respeito e devoção, e foi ao longo dos anos repassando aos seus filhos de santo. Este nome quase não era citado devido ao respeito e, quando citado, todos os filhos de santo colocavam a cabeça no chão, também em sinal de respeito. Manter o silêncio e o segredo do culto é uma das identidades africanas herdado por seus descendentes, principalmento no culto ao Candomblé, desta forma nada me foi dito além de coisas peculiares à ação da Yalorixá, pois o segredo dos rituais são todos guardados. Diziam que ela era uma mulher muito altiva, determinada e calada, acordava cedo, atendia aos clientes de jogo de búzios somente duas vezes na semana, tinha horário para tudo, gostava de estar a frente das decisões da casa de santo, desde a arrumação até a hora do toque do Candomblé e se o som do atabaque não estivesse a seu gosto, ela pegava os agdavis (varas que se utiliza para o toque do atabaque) e começava a tocar do jeito que ela havia aprendido e ensinado, essa era a forma dela demonstrar seu amor aos orixás, se dedicando integralmente a seus designios.
             A Yalorixá Regina sofreu diversos preconceitos e perseguições por ser adepta do Candomblé, religião a que foi fiel até os seus 95 anos. Durante muitos anos, a Yalorixá foi procurada por jornais e revistas para falar de seu legado e o de sua família no Candomblé, mas sempre se negava, dizendo que não gostava de dar entrevistas. Durante toda sua vida espiritual, tem-se muito pouco de sua aparição pública. Só foi possível encontrar uma foto de quando ela recebeu um título das mãos do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, em 2003 – o Prêmio Camélia, como uma das yalorixás mais antigas do Rio de Janeiro. Além disso, uma foto no jornal Icapra, quando de sua ida ao enterro do Pai Paulo da Pavuna, um jornal que divulga as religiões de matriz africana; e uma foto no livro Mulheres negra do Brasil. 
A Yalorixá Regina de Bamboxê viveu uma vida em prol da religião e, desta forma, deixou um legado. A continuidade de uma história que atravessou o Atlântico foi continuada aqui por gerações e gerações, e decerto continuará sendo conduzida e transmitida por sua família consanguínea e igualmente por sua família de santo. Os pais e mães de santo tem uma forma muito peculiar de guardar seus segredos e só repassando aos filhos de santo de acordo com sua idade de santo, algumas coisas vão sendo escritas em cadernos que são guardados e mostrado somente quando o filho esta pronto e é num destes cadernos da Yalorixá Regina, que pude constatar toda sua sabedoria e como a mesma transitava entre o idioma Português e o Nagô (Ioruba). Neste manuscrito, o caderno de anotações da Yalorixá Regina de Iemanjá feito por ela, pois, por ser professora, gostava de fazer suas anotações, e nele anota a relação dos orixás com santos católicos, órgãos de destaque da religião (que ora ela irá denominar como “seita”), cargos hierárquicos, objetos de uso, vestuário, parentes, o corpo humano e pronúncias diversas que ela anota em português e em “nagô”, quando se remete ao Iorubá. A análise deste caderno, revela indícios de como a Yalorixá Regina conduzia o culto aos orixás, todos de muitos significados, símbolos identitários do Axé Bamboxê e da sacerdotisa Regina. Observando este caderno pude perceber alguns pontos, como o termo “seita”, a forma como algumas pessoa mais antigas se referem à religião, o sistema simbólico, os cargos dentro do Candomblé, alguns santos católicos, como Ogum, que é comparado a São Jorge no sincretismo e, neste caderno, não é Ogum, que é comparado a São Jorge no sincretismo e, neste caderno, é relacionado a São Sebastião, ficando a comparação de São Jorge para o orixá Oxossi. Reitero que a forma de organização dos dois idiomas - o português e o nagô (Ioruba, um dos idiomas africanos), também chama a atenção para o fato de que, em algumas páginas, determinadas palavras são posicionadas na coluna do idioma inverso, indicando a facilidade com que Regina transitava entre ambos. Os nomes masculinos são sempre escritos na frente dos femininos. Podemos então concluir que esse manuscrito é uma das formas de se manter a tradição religiosa a partir da possibilidade de se arquivar para não esquecer. Talvez a autora tenha utilizado o caderno para treinar a escrita, tendo em vista que a transmissão se dava oralmente e que somente agora, após sua morte, tem-se contato com seus documentos e cadernos de anotações.
Outra tradição que a Yalorixá Regina herda de seu pai, é a forma com que aprendeu  a jogar búzios. Ela cresceu e conviveu em meio aos ensinamentos do culto africano. Seu bisavô, o africano Bamboxê Obitikó, e seu pai, o africano Benzinho Bamboxê, ambos eram babalaôs e responsáveis pelo sistema Bamboxê implementado no Brasil. O saber de Mãe Regina, foi uma das formas com que se manteve no Rio de Janeiro, pois além de ter muitos filhos de santo, ela tinha também muitos clientes e o que era de se estranhar, por ser uma mulher que não aparecia na mídia, porém segundo seus filhos de santo foi a Mãe de santo responsável por cuidar de muitas pessoas e também sacerdotes do Candomblé no Rio de Janeiro, mas sempre buscando o anonimato, afim de manter o segredo. Desta forma, conseguiu construir a casa de santo em Santa Cruz da Serra, sem a ajuda de ninguém, somente com sua fé e a condução da religiosidade. Pode-se afirmar que foi uma vida em prol da religião. O que foi sempre relatado por seus alguns dos seus filhos de santo que tive a oportunidade de entrevistar, todos cada um do seu jeito, tinham o mesmo relato “minha mãe de santo era muito rígida, mas amava os orixás, o orixá era a vida dela...”, e assim por diante. Sobre a prática da Yalorixá Regina de Iemanjá, seu conhecimento e reconhecimento através do jogo de búzios, o depoimento do filho de santo, Junior de Omolu revela como sua yalorixá adquiriu fama e respeito no Rio de Janeiro:

“Tinha um conhecimento enorme, cada um que procurava ajuda encontrava: palavra, resposta, certeza, solução, e aquilo passavam pra outro, outro. Muitas das vezes fiquei lá ajudando ela, ajudando as pessoas que iam jogar, ela só atendia terças e quartas-feiras, somente 15 pessoas, davam 8 horas da manhã e já tinham as 15 esperando. Você era obrigado a pedir para voltar no dia seguinte, a revolta das pessoas era grande, de madrugada, duas e meia, 3, 4 horas, eu escutava o barulho de carros chegando. As pessoas chegavam, tomavam cafezinho, esperavam até a hora de abrir a porta para fazer o jogo. Ela foi conhecida pela competência, naquela época não havia mídia que fosse divulgar a Yalorixá, foi o trabalho, ser reta, correta, direta, [...]. (Sebastião Junior, NI/2012)
Pode-se afiançar, então, que o saber mágico-religioso de Mãe Regina de Iemanjá vem de sua família africana e se desenvolveu pela convivência e aprendizado com o pai. Achei importante trazer um trecho do depoimento de um de seus filhos de santo, por demonstrar o amor e respeito que esta Yalorixá conquistou ao longo de sua trajetória de vida, pois segundo relatos ela auxiliava seus clientes, grandes pais e mães de santo, transmitia o saber a seus filhos de santo, assim que os mesmos estavam prontos para o oficio de zelador ou zeladora de uma casa de santo. Através de seu jogo, ela transmitia sabedoria e confiança por sua firmeza e rigidez nos ensinamentos das práticas religiosas do Candomblé.
           Após migrar para a Baixada Fluminense, já na década de setenta, o terreiro foi sendo construído com ajuda dos filhos de santo. Grandes transformações ocorreram desde a chegada da Yalorixá Regina à Santa Cruz da Serra, até a construção que vemos hoje. Tudo foi feito por ela e está sendo rigorosamente mantido, pela Yalorixá Lina de Oxumarê, sua neta. A casa, o barracão, os quartos de santo, a casa do caboclo, e mesmo as cores, têm sido mantidos conforme ela construiu e gostava, gesto que demonstra preocupação em manter as raízes, a cultura e a tradição do axé.
                   Manter o segredo do culto aos orixás foi uma das marcas identitárias do Axé Bamboxê seguidas por Regina Topazio de Souza durante toda a vida e que foram deixadas de herança para os seus filhos de santo, pois durante toda a pesquisa não foi possível fotografar nem filmar os quartos de santo, muito menos falar sobre os segredos contidos em cada um. A única coisa permitida foi fotografar o interior da casa do caboclo, que não é um orixá do Candomblé, mas que passa a ser cultuado pela Yalorixá Regina de Iemanjá, no Rio de Janeiro, após relutar muito. Durante todo o sacerdócio, a Yalorixá Regina de Iemanjá teve muitos filhos de santo, quantidade esta difícil de precisar. Tudo leva a entender que o silêncio se dava em nome da proteção do segredo do Candomblé, o awo, como eles dizem. 
No ano de 2008, um ano antes de sua morte, a Yalorixá Regina de Iemanjá coloca seu último barco de Yaô, composto de seu bisneto carnal José Henrique, que na época tinha seis meses de idade e que foi iniciado para o orixá Xangô. Tem-se aqui o depoimento da Yalorixá Lina de Oxumarê, para ratificar: “o último barco, foi o Henrique raspado com seis meses, de Xangô Aira, foi o último yaô, em 2008”.
              Em 2009, aos vinte e cinco dias do mês de setembro, vem a falecer Mãe Regina de Iemanjá, momento não só da morte de uma yalorixá, mas um pouco também da cultura brasileira, que como uma grande matriarca soube manter, cultuar, transmitir da forma como recebeu e a partir de agora, como acreditam os nagôs, irá seguir no orun, pois para os nagôs a morte é um reencontro com a vida, com a ancestralidade, e este encontro se dá num ritual chamado axexê. A despedida da Yalorixá Regina de Iemanjá foi vivenciada de muitas maneiras, não só no plano físico, com o sepultamento do corpo, como também no espiritual.  Seu corpo foi carregado pelos seus filhos, filhos estes que ela cultivou durante seus 89 anos dedicados ao Orixá, à família do santo. Pode-se ver um dos códigos da comunidade do Candomblé e como seus adeptos saúdam seus mortos, até porque na concepção que cultuam, a Yalorixá Regina está passando do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Ela não morre agora, passa a ser um egun ou ancestral para toda a comunidade.
Os procedimentos para a realização da cerimônia fúnebre incluem um jogo no qual se define o herdeiro do axé. Neste jogo foi determinado que George Romulo Pereira Silva, seu bisneto carnal, seria seu herdeiro. Pai George tinha 12 anos de iniciado e somente 13 de idade. Sua mãe, Regina Damazia Pereira Maia (Yalorixá Lina de Oxumarê), neta de Mãe Regina Bamboxê, assume o cargo de Yalorixá do Axé Ilê Yamim, entretanto existia aí mais um item na sucessão. A Yalorixá Lina de Oxumaré não estava à frente do Axé Ilê Yamim apenas pela menoridade de seu filho George, mas em cumprimento de uma determinação e herança familiar, pois assim como Bamboxê Obitikô (Rodolfo Martins de Andrade) e Benzinho Bamboxê (Felisberto Américo Sawzer), George Romulo tem como determinação de Ifá ser babalaô e dar continuidade à história da família Bamboxê. Desta forma, ele será o Babalaô, e Mãe Lina de Oxumarê será a Yalorixá do Axé Ilê Yamim. Esta será a hierarquia da casa, determinada no jogo de búzios.
Como no Brasil, as religiões negras seguem os ritos africanos trazidos por negros vindos de diversas partes da África. Nas comunidades de Candomblé, será possível ver o ritual fúnebre de um iniciado na religião de matriz africana, que, neste caso, é uma sacerdotisa
O ritual fúnebre da Yalorixá Regina de Iemanjá foi marcado por grandes emoções, segundo os membros da casa, pois em sua passagem para o orum, mundo dos mortos, quem responde agora é seu egun ou ancestral, e durante todo o axexê lhe foi perguntado, através do jogo de búzios feito por seu sobrinho carnal Pai Air, qual seria o destino de Iemanjá para todos do Axé Ilê Yamim, como também o destino da casa, o herdeiro do axé e como toda a comunidade do terreiro deveria agir dali por diante.
Todo esse processo foi feito diante de várias testemunhas e gerou uma ata a que, com a permissão da Yalorixá Lina de Oxumarê, neta carnal da Yalorixá, foi possível ter acesso, o que contribuiu para o processo histórico social. Nesta ata do falecimento da Yalorixá Regina de Iemanjá, onde se verifica a data do falecimento, os familiares consanguíneos e de santo envolvidos na cerimônia da morte que se inicia desde a morte da Yalorixá até seu sepultamento, datando ainda o início do ritual fúnebre, o axexê, que fica para o próximo mês. Neste documento consta parte da tradição africana com o seu morto, que não está morto e sim saindo do mundo dos vivos e indo para o mundo dos mortos. Existe ainda a ata do ritual, o axexê, onde consta desde sua data, passando por partes do ritual que podem ser ditas ou escritas, tais como consultar os antepassados da família Bamboxê e o que os presentes e o herdeiro devem fazer a partir daquele momento. Relata o nome de todos os presentes no ritual, dentre eles os Babalaôs, Yalorixás, Babalorixás do axé e também de outros axés, pois se trata do axexê de uma Yalorixá. Este será o momento em que os atabaques tocarão e depois somente após um ano, como diz a tradição.
  Todos os mais velhos da religião, presentes no ritual, fortalecem os ritos africanos, onde se deve respeito ao mais velho. Sendo uma das formas de legitimar o ritual, também está de acordo com tudo o que lhe foi transmitido, e diante do olhar atento do mais velho presente, nada pode sair errado, tudo tem de ser exatamente como lhe foi transmitido, pois assim fica selada toda a responsabilidade com os presentes e com o espírito da Yalorixá, que passa do mundo dos vivos para o mundo dos mortos. Segue do aiê para o orum seguindo os ritos e a tradição iorubana, cultuada e perpetuada pelos adeptos das religiões de matriz africana no Brasil. E foi desta forma cumprindo todo o ritual que a Yalorixá Regina de Iemanjá (Mãe Regina de Bamboxê), nasceu, viveu, morreu e seguiu para o orum.
Recriar a trajetória da Yalorixá Regina de Iemanjá foi um tanto difícil, pois além de ser uma das personagens históricas e importantes na manutenção do culto aos orixás trazidos para o Brasil, na Cidade de Salvador por sua família, e posteriormente ao Rio de Janeiro não se encontra nada sobre sua vida nos livros; muito sutilmente foi citada por Agenor Miranda em seu livro “As Nações Kêtu”; no livro de seu sobrinho Air José, juntamente com Vilson Caetano, “Minha vida é orixá”, é citada somente na árvore genealógica da família. Então foi necessário usar os documentos cedidos pela neta carnal, a Yalorixá Lina de Oxumarê, e ainda os depoimentos de seus filhos de santo. Assim está sendo possível colaborar com as pesquisas acerca dos personagens que contribuíram de forma significativa na chegada das religiões negras ao Brasil, e em sua disseminação, após ser intitulado Candomblé na Bahia, assim como todos os membros da família Bamboxê, dando ênfase no eixo Salvador-Rio de Janeiro. Regina Topazio de Souza ou Mãe Regina de Bamboxê, foi uma grande mulher negra que deve sair do anonimato, principalmente por estarmos próximos a seu centenário, já no próximo ano, devemos sim exaltar nossas guerreiras, construir nossos próprios heróis e heroínas, e sair das mãos do opressor que nos diz sempre a quem temos que homenagear a cada ano, vamos criar nossa agenda, saudar nosso povo, tanto vivos como mortos, e criar nossos filhos diante de uma mentalidade nova, espero que um dia para todos e todas, de fato.

CONCLUSÃO

A presente pesquisa procurou trazer a tona a vida e obra de Regina Topazio de Souza ou Mãe Regina de Bangbosé, ressaltando as relações africanas e o processo identitário de homens e mulheres escravos em sua chegada a Salvador e suas contribuições trazendo as religiões negras, dentre elas o Candomblé, assim nomeado no final do XIX.
Analisando  ainda  como se deu a entrada de alguns africanos se dava através de africanos libertos, o que não era suficiente para que eles fossem livres aqui, mas passassem, de toda forma, pela escravidão, inclusive com a mudança de seus nomes e sua inserção no sistema escravista. Seu saber religioso, no entanto, ganhou importância e os colocou em uma posição privilegiada, como foi o caso do Babalaô Bangbosê Obitikó, bisavô do objeto central desta pesquisa.
A descendência africana, por si só, já cria laços e fortalece as redes. Sendo exímio conhecedor das práticas religiosas o coloca ainda mais engendrado no sistema religioso, permitindo-lhe ainda ditar como se deve proceder, trazer novos signos no decorrer do processo de construção e afirmação do candomblé ketu, em Salvador. Isto se torna possível com as viagens de escravos libertos, suas idas e vindas à África, a fim de se apropriar ou reapropriar de seus códigos e símbolos religiosos.
São as redes sociorreligiosas que os ajudam a sustentar o período de escravidão até seu fim. Um fator importante de análise, porém, é como esses escravos fizeram para manter suas raízes, na tentativa de não se apropriarem dos novos códigos religiosos, ou melhor, de uma nova religião, a católica, imposta pelo sistema escravocrata. Está aí o cerne que permeia toda a herança, a identidade e os códigos religiosos da família Bamboxê.
Os africanos descendentes dos Babalaôs, Bangbosé Obitikó e Felisberto Sowzer nascidos no Brasil, na cidade de Salvador, serão considerados e intitulados crioulos, assim como todos os negros nascidos no Brasil naquela época. Os negros africanos, crioulos e índios foram escravizados e isso significou a imposição de novos códigos religiosos, como o católico e, não convencionalmente, os códigos indígenas, que seriam entrelaçados na cultura do brasileiro. O que gerou conflitos para os descendentes de africanos.
Foram investigados nesse processo a chegada dos africanos, seus códigos religiosos, como fizeram para mantê-los e transmiti-los aos seus herdeiros consanguíneos e os do culto, a família mítica. Este trabalho resgata, de forma objetiva, pessoas relevantes para todo esse cenário social, cultural e religioso que, por diversos motivos, foram esquecidas ou deixadas em outro plano, sendo um dos objetos deste trabalho traze-los a tona, demonstrando toda sua importância para a sociedade brasileira.
São objetos deste estudo o Babalaô Rodolfo Martins de Andrade (Bangbosé Obitikó) e seus descendentes consanguíneos, como Felisberto Sawzer, seu neto e, como objeto central da pesquisa, Regina Topazio de Souza, a Yalorixá Regina de Iemanjá. A intenção foi elucidar questões que permeiam o imaginário de muitos a respeito de Salvador como a terra do negro e do Candomblé, e mostrar o Rio de Janeiro nesse cenário, que também passa a ser porto de escravos, ex-escravos e crioulos que foram chegando e se unindo por diversos motivos, inclusive na propagação de seus códigos e sistemas religiosos, durante a qual a fama da Yalorixá Regina de Iemanjá está atrelada a seu saber, ao jogo de búzios a ao seu conhecimento dos segredos dos orixás.
Esta é uma tentativa de falar sobre a Yalorixá Regina de Iemanjá, embora existam alguns trabalhos, que falam sobre seu bisavô, seu pai ou o Candomblé, mesmo sendo muito poucos, dentro de meu entendimento, pois acredito terem dado grandes contribuições ao sistema religioso de Matriz Africana, devendo ser estudados nas escolas, assim como estudamos os outros povos, principalmente os que nos escravizaram. A novidade deste trabalho é o fato de discutir a vinda da família Bangbosé para o Rio de Janeiro e o silêncio de sua grande matriarca, responsável por trazer todo este patrimônio cultural para esta Cidade. Por esta ótica, a família Bangbosé no Brasil exprime não só a hierarquia de um terreiro de Candomblé, mas uma família que viveu na escravidão e se uniu em uma religião fundada por escravos e libertos, vindos da África ou de Salvador. Desta forma, acredito esta contribuindo modesta, mas significativamente na ampliação dos estudos sobre a identidade africana e seus descendentes, na Bahia, no Rio de Janeiro e, sobretudo, os atores que compõem este cenário e suas manifestações simbólicas.

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MEU CABELO MINHA IDENTIDADE


MEU CABELO MINHA IDENTIDADE
Um longo caminho trilhado até meus dreds atuais. Vamos as lembranças mais duras da vida de uma criança negra, neste caso sobre o cabelo, pois são muitas as nossas dores. Minha primeira lembrança eu ouvia minhas tias dizerem “Ivone passa alguma coisa no cabelo dessa menina, cabelo vermelho, de fogo” minha mãe dizia “vou trançar” aí vinham as trancinhas e minha mãe colocava umas bolinhas para enfeitar, fazer tranças doía, mas eu gostava porque como eu não morava com minha mãe, era a forma que eu tinha de ficar perto dela. Fui crescendo assim, entre uma trança e outra, feita nos fins de semana que ia para a casa da minha mãe. Nesta época tinha um programa de TV chamado “Os batutinhas” e nele tinha uma menina negra, e o nome dela era “Jovita” e os vizinhos passaram a me chamar de Jovita, eu na época não entendia porque, hoje entendo perfeitamente. Passada está época aos 10 anos fui morar com minha mãe e minha mãe era empregada doméstica, mas nos fins de semana ganhava dinheiro fazendo cabelo em casa, foi quando conheci o pente quente e o Marcel. Era um dia de sofrimento, primeiro eu passava o henê, era igual a um creme preto, passava no cabelo e deixava secar, ficava horas, depois tirava e passava a massagem, mais um tempo, depois enrolava os bobs deixava secar e penteava, isso durava o dia todo. E aí quando não enrolava com os bobs, deixava secar e minha mãe passava o pente quente, uma verdadeira tortura, era um pente de ferro e esquentava ele no fogão, quando ele estava bem quente, minha pegava um paninho, esfregava o ferro que estava em brasa e passava no cabelo e muitas vezes queimava a testa, eu gritava, ai! Ela dizia “quer ficar bonita? Tem que sofrer? ” E depois do ferro vinha o Marcel, para modelar, era uma espécie de tesoura de ferro e esquentava também no fogo. E por vezes o ferro ou o Marcel muito quente queimava o cabelo a ponto de cair e o pior era quando minha mãe dizia “Fica quieta agora é a vez dos parentes” era quando pegava na raiz do cabelo, muito sofrimento.
Passada essa época veio os alisamentos, pastas, ia fazer no salão de beleza, meu deus Porque nunca deixaram meu cabelo em paz? Alisava e lavava, porque a pasta queimava, alisava, colocava bobs e depois ficava no secador, uma hora, saia dali linda, mas no dia seguinte o couro cabeludo começava a minar uma água, eram as queimaduras da pasta, criava uma crosta quando secava. E daqui a uns dois meses tudo de novo. Quanto sofrimento.
Cresci e começaram os alisamentos importados, e as escovas para nosso cabelo, e nem todo mundo sabia fazer, e aí mais sofrimento.
Passado tudo isso comecei a usar tranças variadas e minha mãe dizia “tira essa trocha da cabeça, alisa esse cabelo, seu cabelo era tão lindo alisado” eu retrucava, mãe gosto das tranças e quando tive minha filha, deixei o cabelo dela crescer natural e quando ela tinha uns quatro anos pediu para fazer tranças iguais a minha, minha mãe quase surtou. “Vai fazer essa trocha no cabelo? Igual da sua mãe? Minha filha não sabia o que dizer, mas queria ser igual a mãe. E agora enegreci de vez fiz os tão sonhados dreds, eu amo o crescimento deles, me vejo no espelho e amo minhas raízes, mas minhas raízes incomodam o outro, todo dia tem alguém que diz “você fica bonita com cabelo cacheado” ou “corta esse cabelo”, “faz relaxamento”. Enfim ainda não conseguiram deixar meu cabelo em paz, embora agora eu esteja totalmente em paz comigo e com minhas raízes, com meu cabelo e com minha identidade.
Elaine Marcelina

Rio, 10/12/2015

Elaine Marcelina em Palestra sobre Violência Contra Mulher



Palestra sobre Violência contra a mulher no Museu Ciência e vida, em Duque de Caxias - Rio de Janeiro.

Elaine Marcelina na Rede Unida



Trabalho realizado, na Rede Unida, junto com o Núcleo de Cultura, Ciência e saúde, realizado na Faculdade Moacir bastos, em Campo Grande. Cada participante leu o texto da escritora Elaine Marcelina e deu sua opinião, momento maravilhoso.

Oficina de Elaine Marcelina, na Rede Unida-2012 (Escolha de textos)



Oficina de textos na Rede Unida, no ano de 2012, ministrada pela escritora Elaine Marcelina.

Programa PERIFERIAS - Livro Mulheres Incríveis



Programa Periferias, realizado no Aparelha Luiza, em São Paulo, no ano de 2016, onde a escritora Elaine marcelina, apresentava seu livro Mulheres Incríveis, à convite de Leo Bento e Lu Bento, da Livraria Iná Livros, e a recepção foi da querida Erika, neste espaço maravilho de troca e Cultura em São Paulo.

Tia Sueli, superando as duas Rodas

Tia Sueli, superando as duas rodas Na semana passada fui visitar minha tia e madrinha, ela se chama Sueli, bom a tia Sueli foi atro...