segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Da série Mulheres Incríveis





OS FIOS DE BEATRIZ

Os fios de Beatriz
Nascem na encruzilhada, a caminho do rio
Nascem com energia da dona das águas e do senhor dos caminhos
Nascem enunciando a chegada de uma criança que é regida por Exú e Iemanja
Os Fios de Beatriz
Ao crescer abrem caminho para “Os fios de Beata”
Quando Os fios de Beatriz passam a ser Fios de Beata, começam  a contar histórias ancestrais
Os fios de Beata
Contam histórias de uma mulher de axé
Contam histórias de uma mulher de Iemanjá
Contam histórias e memórias de Orixás vivenciadas no terreiro, espaço sagrado, lugar de resistência
Os fios de Beata
Seguem contando histórias da Iya, histórias da Mãe, Histórias que nos enternecem, histórias que quando ouvimos entendemos o sentido de uma vida dedicada ao sagrado
Os fios de Beatriz
Agora contam oitenta e cinco primaveras
Quanta história nestes fios, estão brancos, e cada um tem um fio de história, um fio de memória, um fio que nos conduz a ancestralidade
Os fios de Beatriz
Tecem uma grande colcha ancestral, que cabem filhos consanguíneos, cabem filhos de axé, cabem filhos da comunidade
A cada primavera nasciam flores, e flores com muitas cores, e consigo sentir exalar o perfume desta Iya, as pétalas ao cair no outono deixavam ali um pouco de sua beleza, conhecimento, sabedoria, axé,
Cada pessoa que convive com Iya Beata, sabe que feliz daquele que de alguma forma pode beber nesta fonte inesgotável de saber, de generosidade, de força, devem ser gratos a Obatala, a Olodumare por estrem a volta e poderem olha para trás e pensar “nossa! Oitenta e Cinco primaveras! Fios brancos! Cada fio um conto, Há! E as contas? Essas contam toda a história de Beatriz e Beata, contam como nasce uma e onde se funde com a outra.
Os fios de Beatriz se entrelaçam com os fios de Beata e faltam palavras para definir a dimensão desses fios, mas sei de uma coisa, sobram afeto, sabedoria, força, coragem, luta.
Os fios de Beatriz falam por si, e os fios de Beata falam por nós, por todos nós de axé!
Elaine Marcelina

Rio de Janeiro, 29/12/2016.

DA SÉRIE: MULHERES INCRÍVEIS




MÔNICA: UMA PARREIRA DE AFETOS

Há se tivesse uma parreira de ti, o mundo seria muito melhor
Há se tivessem plantas assim com esse perfume que exala
Há se tivéssemos a sorte de ter em casa uma muda se quer dessa parreira e ela fosse tomando os muros, nossos dias estariam mais cheios de afeto, ao acordar eu conversaria com esta parreira, e quando desse fruto estaria ali multiplicado seu afeto, sua alma flor
Há se parreira tivesse alma, seria espelhada com toda certeza
Há se essa parreira tecesse amor, tal qual a parreira que conheço de certo nos encantaria em todos os nossos dias
Há parreira que conheço é cheia de afetos, tem alma nobre, exala perfume de flor, tem olhar enternecedor
Há parreira que conheço é cheia de afeto e tem nome, sabe quem é? Não! Impossível você não conhecer Mônica Parreira, uma Mulher Incrível, que esbanja amor e afeto por onde passa e deixa um perfume no ar que mesmo de longe consegue nos afetar.

Elaine Marcelina
Rio, 23/1/2016



ALIVIANDO A BAGAGEM



Hoje amanheci com uma questão na cabeça “por quê? Por quê? Por quê?” os porquês eram referentes a várias situações, e como elas me afligem o como elas me afetam, o como tudo a minha volta por vezes é enlouquecedor, e parei e lembrei-me da frase de uma amiga “se isso não acontecer, você perderá o que?” Ufa! Foi o inicio de minha sanidade de volta, aí mais adiante me lembrei do livro da Marta Medeiros que estou lendo, “Simples assim”, neste livro de crônicas ela aborda situações cotidianas, que bastam decidirmos o que nos cabe e pronto, parece simples, bom nem tanto, mas quando comecei a fazer isso hoje, foi libertador, me afastei da situação que de imediato me afligia e fui cuidar de minhas coisas, remexer em minhas gavetas, ver minhas anotações, os meus prazos com a Faculdade, notas de alunos, um projeto a escrever e puft! Como num passe de mágicas aquilo que me tirou o norte cedo, agora nem esta dentre minhas prioridades, aliás quais são minhas prioridades hoje, aos 42 anos? Muitas, saúde, paz, criar a filha, organizar as finanças, lançar meus livros, a militância, dar aulas, palestras, muitas, sendo que para atingir qualquer uma dessas prioridades, preciso seguir mais leve, diminuir a bagagem, ou aliviar ao menos e como fazer isso? A principio dano valor ao meu eu, me escutando, não dar tanto valor as coisas externas, o que vem do outro, porque o que vem do outro é dele, e só se torna seu se aceitar, se aquilo te afetar, então se criar um campo de bloqueio para as picuinhas, para as mensagens que acha que é pra ti, porque se a pessoa não vem diretamente e te diz, não é seu, e se ela vem diretamente e diz a você, dependendo do que seja, descasque na hora e se for bom pra ti coma, como uma fruta doce e suculenta, se não for bom pra ti, descarte ao descascar, isso mesmo “simples assim”, até porque veja suas prioridades, e nelas não constam espinhos, certo? E para que irá aceita-los, porque agindo desta forma quem vai para terapia é o outro e não você e se você for para terapia serão por suas prioridades e não pelas prioridades do outro, certo? Isso tudo é uma forma de agir que encontrei hoje pela manhã, não é receita de bolo, cada um terá sua forma de descascar seu abacaxi, de aliviar sua bagagem, de seguir com menos peso, somente com o necessário. Crie sua própria fórmula, ou receita de aliviar sua bagagem para poder seguir em paz, mais leve, sem dores, sem rancores, tudo isso pode ficar para traz, porque se os carregar a bagagem pode estar leve, mais o peso mental e emocional vai fazer com que ande cada vez mais a, se não te parar, e te impedir de chegar as suas metas, aos seus objetivos. Então boa viagem!
Elaine Marcelina

Rio, 11/2/2016

EMBARQUE & DESEMBARQUE


Hoje voltando de Porto Alegre, para o Rio, peguei uma dessas revistas que tem no avião, que nunca dizem nada com nada, felicitava pelo ano novo, e fui folheando e lá pelo meio da revista veio “embarque e desembarque”, num contexto desses de viagem e as palavras começaram a me martelar na ideia para escrever sobre nossos embarques e desembarques. Eu como estou com quarenta e dois anos tenho aqueles ditados antigos que logo denunciam a idade, do tipo “não embarque em canoa furada” e por aí vai. Esse ditado por exemplo quer dizer para tomar cuidado com as decisões, e fui pensando nesse embarque que pode ser desde embarcar numa canoa furada ou não, ou num ônibus, num trem, num táxi, num avião, num romance, num livro, num filme, num pensamento, num amor, numa religião, enfim podemos embarcar em muitas coisas, mas o embarque requer um desembarque em dado momento, quer queira ou não queira, como tudo na vida, o embarque é sempre o início de algo, e o desembarque o fim, o ponto final, que pode ser satisfatório ou não, que pode ser feliz ou não, até porque finais felizes só nos filmes e nas novelas, certo? Meu embarque foi bom, mais meu desembarque foi de pura reflexão, a volta pra casa, rever a família, e os conflitos diários, deixar todo o encanto da viagem para trás e voltar a realidade, mas nem todo desembarque é ruim, as vezes é muito bom, vai depender do destino, de quem ou o que te espera no desembarque, depende dos sonhos que leva na mala na hora de embarcar, tudo é subjetivo demais. Podemos pensar o seguinte vou embarcar todas as vezes que desejar, viver o percurso da viagem e desembarcar de acordo com o contexto, sabendo que sempre teremos novos embarques e desembarques e depende de nós como dar a partida e como finalizá-la.
Elaine Marcelina
Rio, 23/1/2016


INTERPRETAÇÃO


A palavra é bem simples, porém na prática começamos a observar a dificuldade que as pessoas tem ao interpretar algo, e se você tenta explicar, o caldo entorna literalmente, Vamos lá tem aquela questão básica, o copo esta meio cheio e outro dia diz não o copo esta meio vazio, quem está certo? Depende do ponto de vista e de sua interpretação, certo? E quando a pessoa é o carona do carro está explicando como chegar ao destino ao motorista, ele aponta com o braço direito e esbraveja “entre ali a esquerda, ali a esquerda” isso apontando para a direita, o motorista fica louco e diz “Esquerda ou direita”, e o carona não entende, continua sinalizando direito, mas querendo entrar na esquerda, quem nunca passou por uma situação dessas? Outra questão “fulana me ligue as seis”, tudo bem, daí mais um pouco a fulana se pergunta “as seis da manhã ou da noite?” tem mais, você entra numa firma e tem uma placa dizendo “informações aqui”, a pessoa entra lê e pergunta “você sabe onde é a sala do seu fulano?” aí a pessoa aponta o setor de informações. Comecei por essas banalidades para chegar onde de fato desejo as interpretações do ser humano, em determinadas situações da vida, e me pergunto as vezes, como a pessoa não entendeu? Comecei a pensar, será que sabem ler e interpretar de fato? Porque as pessoas se dão tão mal em concurso na área de redação e de interpretação de texto? Sério! Fiz-me diversas perguntas, pois tem coisas muito obvias e para o outro, parece até que estou falando em javanês, ou que o texto está em hebraico, coisa desse tipo. Eu estou longe de ser a expert em interpretação, mas as coisas simples, eu consigo me safar, e o que não entendo pergunto, sem problema algum, as vezes penso que o nó esteja aí, como dizer para o outro que não sabe, que não entendeu, que ficara diminuído, e não pensa que fazer esse papelão é muito pior. Eu fico a divagar com as questões do cotidiano, questões inerente ao meu ir e vir, ao que vivencio em meus dias e tento compartilhar com vocês. Enfim boa interpretação a todos, sempre.
Elaine Marcelina

Rio, 23/1/2016

NEUROSES DA VIDA URBANA



Dia desses conversando com um amigo, riamos de outro amigo que pauta sua vida diária em um pedaço de papel minúsculo, coloca toda a rotina do dia, até os minutos e no fim do dia joga fora, e depois de várias risadas eu disse: Todos nós temos nossas neuroses, eu por exemplo quando parei de lecionar a noite, eu olhava para o relógio e dizia, essa hora eu estava na entrada da turma, essa hora a turma estaria fazendo isso ou aquilo, hoje não faço mais isso, até porque já passaram cinco anos, mais já tive outras neuroses, tipo quando comecei a escrever eu apontava uns cinco lápis, escrevia, escrevia, ai quando os lápis ficavam com a ponta grossa apontava-os novamente e continuava, dizia “não escrevo direto no computador, no celular nem pensar”, já caiu tudo isso, hoje escrevo direto no PC e no computador também, curei essas mais vieram outras, por exemplo, sempre saio com duas bolsas, não sei porque, quando vejo, lá estou eu com duas ou mais bolsas, volto várias vezes para ver se a porta esta fechada, guardo todos os meus manuscritos, enfim não cabe tudo aqui. Se pararmos para pensar em todas as nossas neuroses não daria só um texto, daria um livro ou até mesmo uma tese, porque o ser humano é complexo demais, subjetivo demais, tudo pode ser  e pode não ser, depende da ótica, depende de sua lupa, depende de sua interpretação, enfim depende de seu olhar para a vida e como lida com a mesma. E aí meus caros deixo aqui uma reflexão, como você vê e vive a vida? Quais são suas neuroses? Eu estou refletindo e vivendo minha vida como dá e como posso. Minhas neuroses estou trabalhando diariamente e pensando sinceramente em ir para um divã, tem hora que fica difícil resolve-las sozinha.
Elaine Marcelina

Rio 23/1/2016

domingo, 16 de outubro de 2016

LADO A LADO



Maria desceu do ônibus com olhos marejados, peito apertado, rumo ao encontro com seu filho depois de anos, sem saber bem como iria encontrá-lo. Joana ficou no ônibus, mas fez recomendações a ela: — Mãe desce aqui, atravessa a rua e espera ele chegar, depois me liga. E na volta pede a ele pra te levar no ponto. As recomendações eram porque Maria não ia à cidade já há muito tempo; ficava sempre entre a casa da filha e no sítio, dividindo sua vida com o companheiro e os outros filhos.
Maria acenou com a cabeça, em sinal de que havia entendido tudo o que a filha recomendara e foi, e Joana ficou olhando pela janela do ônibus até ele fazer a curva. Ela não podia descer com Maria, pois tinha de ir fazer a inscrição de um curso e aquele dia era o último dia do prazo.
Joana e Maria já há algum tempo estavam lutando juntas, mas tudo havia ficado mais duro quando Maria recebeu a notícia da doença do filho. Ele, desde muito tempo já não convivia com elas, pois por opção foi viver no mundo, nas ruas, e acabou descobrindo que estava soropositivo para o vírus HIV. Para Maria, era como se a vida os estivesse punindo por algo, e com isso ela se culpava, e se perguntava: — Onde eu falhei? E agora? Como vou poder ajudar?
Maria, enquanto estavam no ônibus, lembrou dos tempos em que o filho era pequeno e a acompanhava a todos os lugares, e perguntou: — Joana, lembra dele pequeno? Era tão guloso! E Joana respondeu: — Claro que lembro, mamãe! E enquanto a vovó fazia a comida ele ficava no canto da parede gritando: — Vó, camida, arroz-feijão! E a vovó dizia: — Espera, menino! Já está quase pronto!
Joana, triste, relembrando os tempos de criança, refletiu: — Onde foi que o perdemos? Mas não teve resposta. Ficou ali, no ônibus, olhando as ruas que passavam rápidas por seus olhos marejados. Pensando na dor de Maria e também na sina do irmão.
Depois de orientar a mãe e seguir para cuidar de suas coisas, Joana ficou atenta a qualquer sinal do celular, pois sua mãe ia ligar dando notícias do filho. E só no fim da tarde, quando ela voltava pra casa, o telefone tocou: — Alô, alô, mãe? É você? Alô!
Do outro lado: — Joana? — Oi, filha, sou eu! Encontrei ele, sabe. Ele está morando num quartinho... precisando de tudo, filha: fogão, alimentos, roupas; os amigos dele têm ajudado muito, mas... — Olha, filha, já estou no ponto do ônibus, e chegando em casa eu te conto.
Quando Joana desligou o telefone passou como um filme por sua cabeça: — Como será que ele está? Meu Deus! Imagino como minha mãe deve estar cansada, triste, com fome. E foi direto para casa, fazer uma janta e ficar à espera de Maria, para saber em detalhes a situação do irmão.
Maria e Joana lutam todos os dias: passam juntas a semana. Maria ajuda Joana a criar sua filha. E somente nos finais de semana Maria vai para sua casa, no sítio, ver o companheiro, cuidar das suas plantas e dos bichos de estimação, e ver se alguém mais precisa dela por lá.
Joana e a filha sentem saudades dela em tudo; a casa fica um silêncio. Faz falta até o cheiro do cigarro que ela fuma às cinco da manhã na janela da cozinha, os cheiros de comida pela sala, os barulhos das panelas, e de vez em quando uma cantiga cantada à meia voz. Nos finais de semana é quando Joana percebe a solidão de sua vida e do destino da maioria das mulheres que vivem sozinha com seus filhos. Mas quando Maria chega na segunda-feira, conta os “causos” dela, riem juntas, e depois Joana segue para o trabalho, na certeza de que na volta ela estará lá esperando, com sua filha bem-cuidada.
Muitas vezes, Joana fica temerosa de perdê-la; gostaria de ter tempo para curtir a vida, passear com a filha, presentear a mãe. Mas nem sempre isto é possível. Por isso, agora, ela está tão preocupada com a situação do irmão. Este tem sido o destino de muitas mulheres negras: lutar para sobreviver, sem ter a chance de gozar a vida. Muitas delas sobrevivem sem ter ao menos uma vida digna.
Mas Joana sempre diz a Maria que ela é sua eterna fonte de inspiração! Também, quando olha para a filha, sabe que aquela criança representa tudo o que de melhor ela foi capaz de pôr neste mundo.
E, enquanto espera a mãe chegar, com os olhos marejados, o coração apertado, pega um papel e começa a escrever:

Nada tenho nessa vida além de sonhos, de vocês duas e de minha fé. As pessoas que encontrei na vida, com essas nem sempre pude contar, todas fazem a parada que têm que fazer e partem. Umas deixam marcas, outras não, mas tudo que sou vem do ventre, do sangue e da força dessa matriarca nagô. O que tenho doei para gerar minha cria, meu fruto nesta terra, todo meu sangue, minha força e meu amor.

Quando Maria chega, estava cansada, muito cansada! Há muito tempo que ela não andava de condução para tão longe. Com tristeza nos olhos e voz embargada, contou: — Joana, você não imagina a situação dele! Dá pena de ver! Descobriu a doença há pouco tempo! Está triste, revoltado, achando que a vida é muito injusta. Mas está se tratando. Mora perto do hospital, e vai todos os dias tomar os remédios. Pediu sua ajuda. Ele dorme no chão, tem que levar roupa de cama, fogão, panela e comida. Abaixou a cabeça e as lágrimas pingaram no colo daquela mãe, naquele colo que tantas vezes foi o consolo e o conforto daquele filho.
Joana respirou fundo e, emocionada, disse: — Mãe, o que eu puder fazer, eu faço, pois ele é meu irmão, meu sangue. Quando a senhora vai voltar lá? Maria disse: — Na semana que vem, foi o que combinei com ele.
Maria e Joana passaram aquela semana fazendo planos de rever o enfermo, para ajudar no que fosse possível. Embora as duas, quando iam dormir, pensavam cada uma a seu modo, em como ele estaria dormindo, e no porquê de tudo aquilo que estava acontecendo, ao amanhecer, nenhuma falava de seus pensamentos para a outra, pois temiam causar ainda mais tristeza.
Elas sabiam que, lado a lado, fariam de tudo para cuidar uma da outra e de quem mais precisasse delas. O que ambas não sabiam é que sua força e coragem vinham do fato de elas, mesmo em silêncio, compartilharem dores e afeto.

Elaine Marcelina

Rio, 17/2/2016

Receita da felicidade

RECEITA DA FELICIDADE Ingredientes: 100 gramas de alegria 150 gramas de amor puro 500 gramas de bom humor 200 gramas de energia ...