sexta-feira, 31 de março de 2017

Resenha do CD Afro Tupi - Banda DSD, por: Elaine Marcelina



RESENHA DO CD AFRO TUPI


BANDA DSD

Por: Elaine Marcelina

Injustiça para todos

Esta música é um convite a memória deste país, a pensarmos em quem realmente trabalhou para construir esta nação:
“Ontem escravos, hoje são escravos contribuintes”
É uma crítica a nossa “democracia”, onde uma elite dita as regras e temos que aceitar, assistir a tudo bestializados, como diria o Historiador José Murilo de Carvalho, nos tempos do Império, onde o povo assistia a republica ser instalada de um dia para outro, sem quer eles soubessem o que estava acontecendo. Nós falamos tanto de justiça e de direitos e será que nós temos? Essa música vem nos alertar estas questões tão caras a todos nós, nos leva a refletir em nosso cotidiano e não nos deixar enganar pelo que está posto, pelo que está dado, entende? Resistência é outra questão que nos vem à cabeça,“Injustiça para todos os homens de bem”, uma grande reflexão do que é ser cidadão neste país, quando de fato deixamos de ser escravos? Quem somos? O que somos? O que queremos para nossa Sociedade? Como resistir ao sistema? Ótima forma de resistir é cantar aos quatro cantos da nação o que está determinado para o povo pelos governantes “injustiça para todos os homens de bem”. Questionar sempre. É de fato um grande manifesto.

Eu tive um sonho

Está música parece um hino, mexe com tudo aquilo que desejamos na vida, sonhos, muitos sonhos. “Seu coração será guiado por etnias, vamos vencer, somos muitos” esse refrão ou estrofe é poderoso demais, é uma fortaleza, convida o outro para crer nos sonhos e vencerem juntos, sugere uma coletividade, e em meio a tudo fala de políticas públicas, sobre a manifestação dos cariocas em irem as ruas por R$ 0,20, quando na verdade não era só isso, era muito mais, esse foi só estopim, a gota d’água, para a mobilização, era insatisfação completa com o que estava acontecendo no país naquele momento, permite-nos a acreditar que a união faz a força. No momento em que diz “Eu tenho um sonho e você também tem...”, podemos então definir, eu tenho um sonho de dias melhores, vamos nos unir, e juntos atingiremos este sonho comum a todos, fortalece o coletivo. Podemos ainda pensar na união das várias etnias que formam nossa sociedade e diz que seremos guiados por elas até a vitória, é realmente um hino de força, sonhos e vitória da coletividade.

Afro-Tupi

Um chamado a ancestralidade, a nossa verdadeira história, nos apresenta a tríade de formação desta sociedade. Inicia falando dos índios que habitavam essa terra, da colonização dos portugueses e da chegada dos negros africanos que foram trazidos de África a força e escravizados aqui. Nos convidam a ouvir o toque do tambor, trazem palavras da filosofia africana, tais como, ubuntu – sou porque nós somos, fala desta fusão de etnias (índios, brancos e negros), de onde surge o povo brasileiro, dessa miscigenação. Nos convida a conhecer a força da herança africana e dessa brasilidade afro-tupi. Que força tem essa música, em tempos de discriminação, podemos utilizar nas salas de aula, pois está em consonância com a lei 10.639/03 (Lei de ensino da História e cultura da África), pois todos irão entender através dessa música a formação da sociedade brasileira e nossa diversidade, a partir do momento que entender nossas origens. O verso que diz “converta em ioruba o seu latim”, perfeito para falar da língua, aquilo que foi tirado do negro ao chegar nessa terra. “O toque do atabaque afronta Monteiro Lobato”, outro verso importantíssimo, pois não vivemos numa democracia racial, nunca existiu, e Monteiro Lobato, com suas histórias só fortalece o racismo, esse racismo velado que nos acompanha até hoje. É um grande manifesto cultural, vocês conseguiram nesta música, uma apresentação da história e memória do povo brasileiro, além de ressaltar a importância do negro nessa sociedade tão excludente e racista. Conhecer a história com música, não tem nada melhor e mais bonito.

Cartas na mesa

Um manifesto diferente como a própria letra diz, ou seja, dá uma sacolejada, trazendo a tona os grandes líderes da luta negra, como Luther King, Malcolm X e brincam coma questão do amor à pátria, beijar a bandeira, que pátria? Que bandeira? E falam de cartas na mesa, quem dá as cartas? E se nós (o povo) passamos a dar as cartas, a melodia será outra, trocaremos panelas por tambores, os discursos serão outros, com outras diretrizes. “Miscigenar o pensamento é o As de qualquer manga”, este verso dá uma tese, pois é aí que mora a mudança de qualquer nação, no pensamento, pois se o povo pensar criticamente, se tiver consciência política, será a forma mudança desta nação chamada Brasil.

Pedindo à Deus

Esse mundo capitalista, surge uma inversão de valores “fumaça de valores”, como se preservar dessas inconsequências da sociedade? Apela para a fé “segue pedindo a Deus por justiça”, nesta terra onde os valores são deturpados muitos apelam para a fé. Todo homem tem valor, mas não significa que podem ser comprados, que estão a venda. E seguem seus dias de luta, com subempregos, mais um dia de luta esperando por justiça. Como enxergar a verdadeira alma? Em tempos de pessoas de plástico, volúveis, vendidas por qualquer coisa. Mais encontra na fé a esperança por dia mais justos.

Homens de paz

Apresenta a metodologia das guerras no mundo, e os povos africanos sempre levam a pior. “Homens de paz, morrem por guerra”, no mundo as pessoas morrem em nome da paz. Os povos que adotam a violência em nome de justiça e paz. No nosso país o poder paralelo ganha força e cresce a cada dia, aumentando as guerras e a luta por territórios de paz. Vivemos numa grande inversão de valores mundialmente. Um grande alerta e reflexão pelo que realmente estamos vivendo e lutando em nossas vidas e o quanto estamos contribuindo para essa guerra mundial. Onde está a cura? Como alcançar a paz? Onde estou nisto tudo? Maravilhosa canção.

Sonhos e lágrimas

Luta, guerra e fé, são palavras de ordem para um povo oprimido, que precisa se valorizar, ser forte, pensar no legado que querem deixar e jamais desistir, lutar cotidianamente, pensar na luta dos grandes líderes, não se deixar vencer pelas dificuldades e seguir em frente. “Quem foi que disse que ia ser facil fácil? ” Esse é o bordão de força para qualquer guerreiro que não foge a luta. “O sol não nasce para os covardes”, significa que não se tem espaço para desistir, o caminho é duro, mas tem que lutar e vencer, jamais olhar para trás. Buscar forças para continuar no seu interior, pensar em seus “sonhos e lágrimas” e seguir em frente, tal qual o sol que nasce e se põe todos os dias.

Alguma coisa está errada com a humanidade

Surge aqui um alerta para o comportamento humano. “Alguma coisa está errada com a humanidade”, aborda as lutas e guerras do mundo, genocídios, holocaustos, os massacres, os lamentos de várias etnias, povos que se dizem santos e promovem guerra, outros lutam por terra e promovem guerra. É preciso refletir a humanidade e essas lutas e guerras insanas, que em nome de deuses é capaz de matar e assim seguem mutilando uns aos outros.

Plano Distante

Um homem buscando tranquilidade amor e paz, fugindo do barulho da cidade, tentando viver em harmonia com a natureza. Aborda as mudanças e diferenças na vida, tudo ocorre em velocidade e é preciso estar preparado para este que muda a todo o instante e que nem tudo que reluz é ouro. Pensar e refletir as armadilhas do cotidiano, essas que nos fazem querer ir para longe da cidade grande e suas mazelas cotidianas. Quando encontrar esta tranquilidade estará pronto para seguir para outro plano, caso Deus o chame. Uma reflexão para esse dia a dia que pode ser bem perverso como homem da cidade grande.

Olho de tigre

“Suas escolhas irão definir você”, grande lema para a vida, pois somos fruto de nossas escolhas, e com certeza elas nos definirão. “Seja um farol nesta vida”, muito lindo esse verso, devemos ser luz, abrir caminhos de verdade e de liberdade. Apresenta a vida de um lutador, que seguiu os passos da luta e da verdade, para dias mais justos. Olhos de tigre, olho de vencedor de guerreiro que não teme a luta. Apresenta os sonhos, sonhos liberdade, ser o exército de um homem só, pensar na vida como um campo de batalha e viver com simplicidade e pés no chão, sendo esse farol que ilumina as estradas, a caminhada desse guerreiro. Letra e música forte e nos impulsiona para encarar a vida de frente, sem medo, sem amarras, seguir, lutar e vencer, pois somos fruto de nossas escolhas.



Elaine Marcelina - Poetisa, professora, escritora, ativista Cultural e social.
Enganjada nas causas da cultura Afro e nos direitos da mulher.
 

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