A ideia de ouvir mulheres veio de observar a luta da minha mãe para criar cinco filhos sendo doméstica, quando eu era criança, pensava em como minha mãe conseguia fazer tudo aquilo, e depois que cresci, fui entender o universo das mulheres e principalmente das mulheres negras, pois fui embalada por mulheres negras, ouço o assovio de minha avó natalina até hoje, ela já se foi, mas me marcou e sigo seus ensinamentos até hoje e foi assim que nasceu esse projeto.
terça-feira, 28 de junho de 2016
sexta-feira, 6 de maio de 2016
HOMENAGEM AS MÃES!!!!
MÃES
PRETAS
Mães pretas
Têm útero sagrado
Mães pretas
Geram ancestrais
Mães pretas
São banhadas e regidas pela
ancestralidade
Mães pretas
São únicas
Mães pretas
Acalentam suas crias no
útero
E quando nascem vêm com a
força de lá
Mães pretas
Têm a força de África
Carregam espíritos e
divindades em seu útero
O dia do parto é dia de
festa
É união de mãe e filho para
chegarem ao mundo
Uma luta linda e única
regida sempre por um ancestre
Mães pretas nunca estão
sozinhas
Vivem em comunidade
Vivem em quilombos
Mães pretas
Têm um universo dentro de si
E doam esse universo a sua
cria ao aleitar
Mães pretas
Têm a força das águas a seu
favor
Elas passam todos os
obstáculos em silêncio,
Pois o que importa é sua
cria, é parte de si e de outrem nesse mundo
É sua contribuição nesta Terra
Mães pretas
São leoas, são doces; são
duras, são amáveis
São exatamente o que têm que
ser...
...Mães pretas
Elaine Marcelina
Rio de Janeiro, 21/03/2016
sexta-feira, 22 de abril de 2016
DÁ SÉRIE: NEGRAS RAÍZES
MEU CABELO MINHA IDENTIDADE
Um
longo caminho trilhado até meus dreds atuais. Vamos às lembranças mais duras da
vida de uma criança negra, neste caso sobre o cabelo, pois são muitas as nossas
dores. Minha primeira lembrança eu ouvia minhas tias dizerem “Ivone passa
alguma coisa no cabelo dessa menina, cabelo vermelho, de fogo” minha mãe dizia
“vou trançar” ai vinham as trancinhas e minha mãe colocava umas bolinhas para
enfeitar, fazer tranças doía, mas eu gostava porque como eu não morava com
minha mãe, era a forma que eu tinha de ficar perto dela. Fui crescendo assim,
entre uma trança e outra, feita nos fins de semana que ia para a casa da minha
mãe. Nesta época tinha um programa de TV chamado “Os batutinhas” e nele tinha
uma menina negra, e o nome dela era “Jovita” e os vizinhos passaram a me chamar
de Jovita, eu na época não entendia porque, hoje entendo perfeitamente. Passada
está época aos 10 anos fui morar com minha mãe e minha mãe era empregada
doméstica, mas nos fins de semana ganhava dinheiro fazendo cabelo em casa, foi
quando conheci o pente quente e o Marcel. Era um dia de sofrimento, primeiro eu
passava o henê, era igual a um creme preto, passava no cabelo e deixava secar, ficavam
horas, depois tirava e passava a massagem, mais um tempo, depois enrolava os
bobs deixava secar e penteava isso durava o dia todo. E aí quando não enrolava
com os bobs, deixava secar e minha mãe passava o pente quente, uma verdadeira
tortura, era um pente de ferro e esquentava ele no fogão, quando ele estava bem
quente, minha pegava um paninho, esfregava o ferro que estava em brasa e
passava no cabelo e muitas vezes queimava a testa, eu gritava ai! Ela dizia
“quer ficar bonita? Tem que sofrer?” Depois do ferro vinha o Marcel, para
modelar, era uma espécie de tesoura de ferro e esquentava também no fogo. E por
vezes o ferro ou o Marcel muito quente queimava o cabelo a ponto de cair e o
pior era quando minha mãe dizia “Fica quieta agora é a vez dos parentes” era
quando pegava na raiz do cabelo, muito sofrimento.
Passada
essa época veio os alisamentos, pastas, ia fazer no salão de beleza, meu deus
Porque nunca deixaram meu cabelo em paz? Alisava e lavava, porque a pasta
queimava, alisava, colocava bobs e depois ficava no secador, uma hora, saia
dali linda, mas no dia seguinte o couro cabeludo começava a minar uma água,
eram as queimaduras da pasta, criava uma crosta quando secava. E daqui a uns
dois meses tudo de novo. Quanto sofrimento.
Cresci
e começaram os alisamentos importados, e as escovas para nosso cabelo, e nem
todo mundo sabia fazer, e aí mais sofrimento.
Passado
tudo isso comecei a usar tranças variadas e minha mãe dizia “tira essa trocha
da cabeça, alisa esse cabelo, seu cabelo era tão lindo alisado” eu retrucava
mãe gosto das tranças e quando tive minha filha, deixei o cabelo dela crescer
natural e quando ela tinha uns quatro anos, pediu para fazer tranças iguais as
minhas, minha mãe quase surtou. “Vai fazer essa trocha no cabelo? Igual da sua
mãe?” Minha filha não sabia o que dizer, mas queria ser igual à mãe. E agora
enegreci de vez, fiz os tão sonhados dreds, eu amo o crescimento deles, me vejo
no espelho e amo minhas raízes, mas minhas raízes incomodam o outro, todo dia
tem alguém que diz “você fica bonita com cabelo cacheado” ou “corta esse
cabelo”, “faz relaxamento”. Enfim ainda não conseguiram deixar meu cabelo em
paz, embora agora eu esteja totalmente em paz comigo e com minhas raízes, com
meu cabelo e com minha identidade.
Elaine
Marcelina
Rio,
10/12/2015
MUDANDO O RUMO DA PROSA
Ontem
eu comecei uma reflexão que está sendo muito doida, estou mexendo e remexendo
no meu “eu”, minhas atitudes, e entre uma neurose ou outra, entre uma
justificativa e uma pergunta, nenhuma resposta até agora, somente a certeza de
que estamos nesse mundo para ser feliz e para isso temos que ouvir nosso
coração, nossa voz interior e seguir as pistas, sem titubear. Estou bem no meio
de minha própria caixa de pandora, do meu triangulo das bermudas interno, a
caixa quando abro sai é coisa, nossa! Nem eu tinha noção que tinha tudo isso
dentro de mim. E aí fico perdida, mas na tentativa de me encontrar, me
reconectar com o sagrado, com a mulher que sempre desejei ser e neste momento
da vida percebo que estou muito distante dela, mesmo sabendo que ao longo de minhas
quarenta e duas primaveras o que tenho feito é tentar encontrar um norte, um
lugar no qual eu possa respirar, ouvir os pássaros e escrever, escrever,
apagar, e tornar a escrever. Vou seguindo meus dias na certeza de que a cada
amanhecer tento ver o brilho do sol, conversar com ele, ouvir seus conselhos,
senti o vento e as mensagens que ele trás, ver as batidas das ondas e ficar ali
contemplando, até que a brisa do mar me diga algo que intui, mas não tenho bem
certeza se é intuição ou meu coração, ver a lua iluminando tudo e meus
pensamentos a vagar, sempre procurando respostas, sei que não virão prontas,
virão sempre como enigmas, como um quebra cabeça, e vou montando, tentando
decifrar e é assim que tentarei mudar o rumo da prosa.
Elaine
Marcelina
Rio,
10/12/2015
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